Volta para casa, fone no ouvido, a música animada era contramão da própria natureza dele, mas há dia e hora para tudo. Ônibus quase cheio, senta atrás, lá no fundo, últimas cadeiras vazias, só ele na do meio e uma mulher desconhecida perto da janela.

   O pensamento estava afastado, planos longos, ideias distantes, quase nada a ver com a melodia, com a letra; a melodia era barulho para sufocar o barulho do motor, das conversas paralelas, do mundo de lá, e sintonizar com o mundo de dentro. O olhar percorria rápido, a visão que logo mudava para além dos vidros sujos, que deveriam ser limpos apenas em dias de chuva, provavelmente, e fazia tempo isso.

   Como todos os outros, enquanto podia, de canto de olho observava algum detalhe da pessoa ao lado. Quando voltava a vista notava, numa percepção periférica, que ela fazia o mesmo, com mais sutileza sem que pudesse ser discreta. Algumas vezes isso se repetiu. Enquanto ele lembrava de algo sobre o lugar onde passava, então a mulher desconhecida disse qualquer coisa, e ele não ouviu, só soube por causa dos olhos fitos nele, por conta do movimento dos lábios, e um som distante, um corpo pouco curvado em sua direção. Reagiu tirando o fone mais próximo dela, e sem olhar diretamente, agora que poderia, mesmo que devesse, perguntou:

   – Desculpa, como?

   – Esse ônibus vai para onde?

   – Para onde vai esse ônibus? Bem, ele vem até esse bairro aqui e faz a volta. Você queria ir para onde?

   – Não, nenhum lugar. Peguei o primeiro que vi, só queria saber mesmo.

   Ele foi surpreendido pela pergunta, e a resposta, então, mais inusitada, porém sua reação foi inexpressiva. Fingia naturalidade. Se ela tentou não conseguiu esconder a timidez misturada ao nervosismo e tristeza, isso ficou tão claro quanto aquela tarde de sol numa primavera. Considerou que se ela quis pegar um ônibus qualquer não era para bater papo com um estranho… Ou seria? Se ela falou primeiro talvez não se incomodasse com uma pergunta que ele pudesse fazer, considerou. Ninguém estava olhando para eles, falavam baixo com cabeça encurvada, ou ninguém quis demonstrar algo, até eles fariam o mesmo. Rompendo a distância, passando por cima da indiferença, ele continuou falando, depois de uma breve pausa do que ela disse.

   – Depois que fizer a volta aqui nesse contorno, seguirá pela principal do bairro, e voltará para o Centro da cidade.

   – Ah, tá bom. Obrigada.

Pelo que falou e como se expressou de modo algum sinalizou que realmente se importasse com o trajeto ou onde estava. Ele tirou o outro fone do ouvido, e viu nela uma inquietação familiar. Poucos segundos após endereçou outra pergunta.

   – Você está bem?

   Com expressão distante, admitiu que não estava, o desconforto ao dizer ou em não estar, ambos, era sensível. Vendo que havia muito mais por ser dito, mas algo ainda impedia que ela por si mesma falasse.

   – Aconteceu algo? Se quiser falar…

   – Sim, é que meu ex-marido…

   Muitas coisas ruins podem se seguir depois de uma frase como essa, ele não sabia o que pensar, decidiu esperar a continuação. Ela engoliu seco, não conseguia devolver a mesma atenção que recebia dele. Era como se ela segurasse em cada poste que passava lá fora, procurava palavras entre tantos pensamentos e sentimentos represados. Após certa pausa conseguiu construir uma frase mais completa.

   – Então, meu ex-marido estava desaparecido há três dias. Ele apareceu hoje.

   Não é sempre que se ouve algo assim. Notoriamente havia uma tsunami de questões arrastando cada palavra do que dizia, mil pensamentos surgiam na cabeça dele; daquilo que acabava de escutar entendia que ela sentia algo forte, porém era incapaz de precisar o que ela queria dizer com aquilo, além do que disse de óbvio. Aliás, o que é óbvio numa declaração dessas? Ele estava diante de uma mulher que precisou rodar pela cidade num ônibus qualquer porque o seu ex-marido, que não se sabia onde estava há três dias, reapareceu. Uma pessoa desaparecida que reaparece depois de três dias parece ser boa uma boa notícia, mas se for o seu ex-marido? Ele preferiu não deduzir nada por si só daquilo que lhe foi dito, ela poderia dizer abertamente, ou não poderia? Resolveu questionar.

   – Mas isso é bom?

   Ela demorou para responder, e só disse que era, em tom de fábula, um sussurro de mentira, e ele sabia disso pelas tantas mentiras que já contou para si e fingiu acreditar, mas vindo de uma outra pessoa seria adequado consentir no engano? Auto enganar-se é ardiloso, é como criar uma névoa que te cobre por completo, você se sente perdido, ao mesmo tempo que seguro diante do que teme, muito embora esteja há dois passos de um abismo que você não vê, nega existir, jura felicidade, sustentando uma alegria tola e sem consistência, como a própria névoa. Mas, sem dúvida, no fundo de si sabe exatamente onde está, mesmo que queira não saber de saber.

   – Não quero ver ele. Não posso.

   – Por quê?

   – Não.

   – Mas parece que precisa.

   – Não. Ele sumiu para chamar minha atenção.

   – Parece que conseguiu, não é?

   – Não.

   – Talvez vocês precisem conversar.

   – Não quero falar com ele.

   – Porquê?

   – Estou com raiva.

   Não havia como seguir falando depois de algo assim. Ele já não hesitava em perguntar e nem ela em demonstrar nas afirmações o que estava guardando consigo. Ele mesmo, assim como alguns amigos também relataram que fizeram, já pegaram um ônibus para sair de casa, olhar o nada, pensar em tudo, respirar, ver algo e concluir seja o que for. Se não alivia a angústia atenua a dor de alguma forma. Desde a infância dele saboreava o vento como uma sensação de contemplação, isso lhe dava a impressão de força, de não estar só, havia algo maior ali com ele. Mas o que estava com ela? Qual era a fonte de sua raiva? Não poderia mergulhar naquilo, nem ela deveria para não se afogar, e nem ele teria como ir além do que ela colocou sabendo que logo iria ter que descer do ônibus, poucos minutos restavam. Ele só queria poder ajudar, mas como?

   Estavam calados por alguns segundos. Ela dava a entender que muito mais tinha para dizer, só que embargava-se na alma, prendia-se na garganta, a língua não tocava no que faltava pra falar, e não chegava o que falar até a língua. Há momentos que as palavras não se fazem presentes, trilhas de letras, rotas marítimas de significados, e o frio mortal das correntes profundas conseguem nos conduzir para lá ou para cá; lá estamos, com remos pequenos, sonhos enormes, nem sempre maior do que os pesadelos, e acima de tudo o céu estrelado acima de todos, tão grandioso, mas distante. Especialmente longe de quem se curva para a dor sem voltar os olhos para o alto.

   – Se você sente isso é sinal que precisam conversar.

   – Não posso conversar com ele, se eu fizer isso posso voltar. E se eu voltar o que ele vai fazer depois? Se matar na próxima vez?

   Havia um sofrimento envolto de muito afeto incompreendido que teimava em encontrar forma no que dizia, ela sentia mágoa, mas não era só isso. Ela não percebia que a mágoa é um afeto machucado que pede para ser sarado, e enquanto isso não cura de uma vez a raiva aparece. Perdoar e pedir perdão dói de modos semelhantes para o ego, de todos nós. E enquanto sustentamos esse tipo de sentimento vamos permitindo que mais dores apareçam. Assim como é com o amor, quanto mais nos entregamos de modo mais íntegro e puro vamos sendo imersos em mais amor, e cada vez melhor nos sentimos. Só que, num mundo imperfeito, com pessoas imperfeitas, o ideal é uma utopia rarefeita, miragem no caos; conto escrito em papel manchado com o abandono do tempo, riscado por cima pela tristeza de quem desistiu, renegado e rasgado por aquele que foi vencido pela raiva, e se deixando vencer caiu na pior das misérias, a da alma. Mesmo que esteja farto e gordo, bêbado e podendo tudo comprar, nada tem, senão sua desgraça vil.

   Não era assim que ela se encontrava, mas seguia as placas que indicavam o caminho mais rápido para tal ponto. E uma hora chegamos, não importa o quanto rodemos até lá, e descer ou cair é mais fácil e rápido do que subir e se pôr de pé. Embora não soubesse como ainda tentava encontrar um caminho, um meio de chegar no fim dessa dor que consigo mesma trazia. Três dias depois, não morreu, o aquele que chamava de ex-marido está vivo, mas e o amor ainda vive? Que raiva é essa que se resolve com uma conversa? Que amor é esse que se deixa obliterar por uma raiva? O que dizer? Só ela sabe o que viveu, o que sofreu. Mas ele está vivo, e voltou. Voltou para ela? Quem sabe? A pedra do tempo rolou, da tumba das incertezas ele saiu, de pé coberto dos trapos dos erros passados andava com dificuldade. Quais enganos o levaram para longe? Onde esteve? Com quem? O que fez? Quais pensamentos teve e quais sentimentos o trouxeram? Havia tanto a ser ponderado por ela, pelo ex-marido, pela história incompleta, e que bom que é assim. Ainda restava tempo, vida e esperança.

   Ao ouvi-la não quis ser inoportuno, nem precipitado ao dar voz ao cupido, não sabia o que houve entre eles, não sabia o que construíram juntos pelo tempo do casamento que não voltou ainda. Seria leviano tomar um partido assim, mesmo que o seu coração compungisse-o para tal era sua mente que especulava o que estava de pé nessa terra arrasada do relacionamento que ainda clamava por mais, de alguma maneira, restava algo. E entre escombros é desgastante procurar, encontrar e saber separar o que é útil, aproveitável, saudável e sábio. Há uma espessa camada de cinzas e carvão de tantos males, uma fumaça tóxica que nunca se vai de vez, ameaça qualquer alma que se aproxime sem cautela e proteção. Não respire isso, mas você vai querer inalar.

   – Sabe, ainda acho que vocês precisam conversar. Eu sei que fugir é o que tendemos a fazer, mas é assim que você consegue manter tudo como está, e acaba não enfrentando o que necessita para que a raiva e qualquer dor possa ir embora. Mas é no seu tempo, ainda bem que você quis um espaço e um tempo para pensar. Faça isso.

    Ela ouviu com atenção só aquilo. A perna que balançava parou por um momento. Deixou a visão da janela e focou no celular que agitava na sua mão. Os dedos passavam por sobre a tela sem fazer nada. Parecia que aguardava uma mensagem ansiosamente, ou poderia querer mandar uma, ligar talvez. Ele só ficou olhando-a por aquele instante, vendo que ela não iria mais falar nada além de tudo aquilo, ele voltou seu rosto para frente. Esperou mais um pouco até que o silêncio mostrasse que se avolumava, então colocou um fone no ouvido. Mais uma parada do ônibus, restava somente mais três até ele descer. Pensou em ficar mais no ônibus, mas não sabia se deveria. Se ela queria, se era realmente necessário. Há caminhos que precisamos de ajuda para percorrer, porém devemos completá-los sozinhos. Ninguém deve pisar os teus passos, mesmo que você possa seguir os melhores passos que puder, ainda assim só você mesmo deve pisá-los, esperar por outros é perder os seus e se perder.

   Não ouvia nenhum som dentro do ônibus, mesmo com a música tocando todo o foco estava no que ela poderia dizer, mas nada disse, não com palavras. Ele ouviu aquele tesouro, e contou, faltam mais duas paradas. Ela se mantinha imóvel, olhar distante, semblante pensativo, coração acelerado, mente a mil: E se eu conversar com ele mais uma vez? E se outra vez eu beijar? E se for bom? E se der errado depois? E se ele morrer?

   Que mundo doido onde a felicidade é uma loucura incogitável. Tantas ações para ser infeliz e quase nada de felicidade palpável. Quanta confiança no mal, quanta fé no erro, quanta espera pelo engano, e tanta certeza na dor. E se ela fechasse os olhos, calasse os medos, largasse a raiva e falasse para quem ama que o ama? Insano isso! Concluí que melhor não… Ego? Dor? Medo? E o amor?

   Mais uma parada e ele vai precisar ir, e deixar tudo assim, seguir sua vida, prosseguir sua história. Ela nada diz, e tudo fala. Ele nada fala mais, e acha que já falou tudo, tudo que poderia. Ao menos por agora, por ali, para ela. Ainda que quisesse não se pode dizer tudo; não se pode dizer tudo.

   Após três dias ressurgiu. Quantos amores acabam com três dias eternos. Quantos amores que se eternizaram em três dias. E se ele for embora? A possibilidade dele ir embora é mais contumaz do que o fato que ele voltou. Mas se ele nunca mais for? E se ela quiser ficar para sempre com ele? E se ele quiser o mesmo? E se ele for embora, e levando-a  viverem mil dias de mil histórias? Terrível como a melancolia possa apavorar, não por menos. É assustador como o amor não faz feliz como se espera, não por causa do amor. Ele voltou, mas ela está por aí, num ônibus qualquer, falando com um estranho no lugar de se abrir para o ex-marido. Em todos os desentendimentos e ressentimentos há muito excessos, e dialogando poderiam encontrar o que está pesando dentro deles, e daí até deixar o “ex” longe do “marido”, em certa medida seria outro excesso. O “ex” funciona como prefixo que “preteriza” aquilo que tem razão de ser no presente, mas não o é por alguma falha do futuro não ter vindo a ser como se desejava. É contra senso, lábios que outrora se beijavam agora são muralhas para línguas que não se falam como se falavam. E como se falavam…

   É a próxima parada. É hora dele ir. Estende a mão, toca suavemente no ombro dela, com a mesma leveza que perguntara de coisas tão ásperas, e diz “fique bem”, sorrindo encontra o sorriso dela escondido numa feição de transtorno. Levantando coloca o outro fone.

   Quando ele sentou naquela cadeira ela já estava lá, ela e a janela, não se sabe janela para o quê. Mas ela tinha uma. Restava-lhe saber olhar, restava-lhe ver, e oxalá que enxergasse o que estava bem diante de si. Uma volta na cidade é muito menos demorada do que os três dias passados, os quais também estava imersa no turbilhão de “e se” dentre tantas outras incógnitas irresistíveis. Atrás dele ainda estava lá, ela e aquela janela, assim como quando entrou, diferente do cenário tomara que internamente mudanças tenham ocorrido.

   Ao descer do ônibus viu que horas eram, atravessou a rua recolocando os fones que despencaram na descida e nas passadas apressadas, havia urgência de casa. Atravessou aquela rua quieta, poucas pessoas e quase nenhum carro, ao pisar na calçada do outro lado um braço se enrosca no seu, suas mãos estavam no bolso. Era sua noiva que chegava de repente, mas ela não o assustava. Havia temores maiores e ao vê-la sabia que não precisava fugir de nenhum deles. Riram da surpresa que não assustou, ao invés disso o deixou contente; começava uma nova canção animada, céu azul, fim de tarde, estavam a caminho do lar.  Então, ele falou:

   – Sabe, amor, encontrei com uma mulher hoje no ônibus…

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