Antes de dezembro já há casas ornamentadas. Após algumas reformas é hora de montar a árvore de natal, muitos enfeites, um pisca-pisca novo, bolas coloridas e brilhantes, um presépio caprichado, completinho com ovelhas, anjinhos, e pastores olhando pela janela da estrebaria o menino cercado dos pais, dos magos e mais animais sorridentes e curiosos. Quem não ama o espírito natalino?

Ruas decoradas, propagandas de TV, publicidades recheadas de canções tocantes, das clássicas até as novas que evoquem sobre todos um coração sensível para… Para o quê mesmo? Ah, o nascimento de Papai Noel? Ou a sua esperada vinda com um saco cheio de presentes? Não somente as crianças ficam ansiosas por essa data, são horas nas filas das lojas, todo shopping fica tomado por uma multidão: Vamos celebrar o Natal!

Nestes dias de festas é preciso reunir a família, vários pratos foram preparados, diversos sabores, parentes que no ano inteiro não fizeram a mínima questão de se ver agora terão que fazer os cumprimentos típicos, felicitações com palavras doces e coloridas, a semelhança de um algodão doce:  vazio, sem nutriente, que facilmente se desmancha. Quem não gosta, hein?!

Receber presente de quem é ausente, encontrar com quem nunca quis te ver, ouvir votos de quem não é sincero e ama maldizer, ir para confraternizações com quem te suportou ou nem isso durante o ano, e participar do “amigo secreto” com quem não é digno de se chamar nem colega. Restaurantes prestigiados, joias de luxo, viagens glamorosas, roupas e perfumes caros… Mas todo esse clima natalino não tem preço.

Dias após o Natal, eu passava por uma mãe que segurava duas crianças, uma pela mão e no outro braço uma menorzinha, andando pela rua era seguida pela terceira filha, suponho, que vinha em passos mais vagarosos pouco mais atrás enquanto bebia algo que levava nas suas pequenas mãos. A cena meiga foi interrompida pelos gritos da mãe que repreendia aos berros a garota mais atrás: “Não é assim, sua idiota, deixe de ser burra!”. O olhar raivoso dela para a criança contagiou o meu que logo ficou bravamente fixo nela. Foi instantâneo, ela percebeu minha expressão, deu de ombros e seguiu seu caminho. A pequenina nada fez, não reagiu, nada demonstrou, seu semblante não indicava nenhuma novidade, parecia ser só mais uma manhã de sol qualquer com sua família, ainda no espírito natalino.

Seria uma exceção do instinto materno pós-Natal? Sim, talvez. Há pouco tempo o relato de uma pessoa sobre suas experiências de Natal me confirmaram o quanto é genérico e comum nesse período que acaba sendo, para tantos, tão trabalhoso e complicado em algumas casas. Depois de um longo relato das desavenças familiares que tiveram, incluindo até expulsão dos parentes recém chegados, tentativa de roubo de comida, e ela afirmar que gostaria de ter uma bomba para explodir e matar todos, instantes seguintes encerrou a história dizendo, com tom singelo e calmo: “as pessoas não sabem transmitir a paz”. Nisto, certamente, ela foi muito feliz no que disse, sábias palavras, só pode dar paz quem tem paz. Pensando bem, eu tive um natal sem parentes por perto, não participei de amigo secreto e nem confraternização, isso explica o porquê de ter sido tão bom e tranquilo?

Ao que entendo, diferente do que se transmite, o Natal não é a celebração do nascimento de Papai Noel. A ideia central seria sobre paz, amor, esperança e família. Para alguns isso fica inviável de existir, e impossível se for com a família. O espírito mais comum é o belicoso, mesquinho, consumista e fúnebre, só que acompanhado de músicas melosas, bebidas e comidas, presentes e pisca-pisca. Se na época que se lembra do nascimento de Jesus é assim o que posso esperar da páscoa, quando a mensagem fala da crucificação? Como as pessoas estarão? Da mesma forma, nada muda, o ano inteiro sendo infeliz não será no fim dele que eles conseguiram um novo espírito com panetone, champanhe, presépios e roupas brancas.

Arroz com passas e trocadilhos estúpidos não são as piores coisas do Natal…

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